Meu curso e xodó

As vezes, contando os episódios da infância, menciono o dia que vi um ladrão se esconder da polícia e  entreguei assim que vi a polícia. Eu era bem criança, costumava passar minhas férias escolares no ambiente de trabalho de minha mãe na época. Assim que vi a movimentação estranha dentro do paço municipal, não exitei em entregá-lo. Os minutinhos foram bem tensos e desde então, o irmão do prefeito da época me chamava de “minha detetive”.

Sequer sabia o que era ser um detetive só pra dar uma noção da minha pequenez, mas já gostava da ideia. Minhas brincadeiras com minhas primas incluíam observação dos comportamentos de quem nos cercava e registros. Me lembro da gente morrendo de rir anotando tudo.

Chegou a fase adolescente e algumas perguntas vinham à tona. Uma delas era o que cursar no ensino superior e eu me via uma baita psicóloga. Mas a ideia era sempre ver o que estava além do visível. Sempre. Amandinha detetive ainda estava ali, muito embora não tivesse dados reais dos cursos ofertados e tão estimados na época.

De modo geral, eu só queria estar além. Observar, observar e tentar entender situações, ações e talvez mergulhar nas intenções. Nem sempre expostas. Muitas vezes não expostas.  Veio Administração Pública como o curso conveniente, depois de um ano de pausa veio um curso que me fazia focar na palavra licenciatura, mas era em Letras Português. Nada mais óbvio pra uma detetive que gostava de registros. Ou uma aspirante a psicóloga, quando na prática já escrevia em blogs.

Foi um ano estudando onde convinha, pela ânsia de fazer as coisas bem no meu ritmo, até que num ritmo que ainda estou aprendendo a dançar, veio a universidade ansiada, com todos os desafios e confortos que um dia imaginei. Como um verdadeiro e claro presente de Deus, veio o curso que queria no local que queria.

Foi tempo pra atentar que a Psicologia não era bem meu rumo. A prova maior foi que, com uma certa frequência no Centro de Atenção Psicossocial, acabei por ouvir histórias e ter que sair às pressas para chorar. Me via angustiada, envolvida, impotente e chorona. Tem que ser muito profissional pra ser psicólogo, coisa que eu não saberia lidar.

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Apesar de parecer uma longa introdução, e pode até ser, o foco é que esses dias andei estudando Latim I, e ainda estou em andamento lá pelas tantas de Análise do Discurso. Como queria chegar nessas áreas, ciente do desafio. E entre um nervosismo e outro, resolvendo as coisas e tendo que assimilar às vezes de um jeito bem solitário, acabei conseguindo ver o quando gosto do meu curso e o cerne, a comunicação, como algo divino. E quando pende para o alto, meus olhos tendem a marejar.

Mergulhar na ciência que te faz, por exemplo, agora entender o que estou querendo dizer é um milagre! Você pegar esses códigos e conseguir, por vezes, até ouvir minha voz é incrível! E meu curso veio como esse presente pra mim, que ganhei além de teorias sistematizadas, além de outros presentes a curso prazo, mas entender que o cerne da comunicação está atrelado a minha tarefa aqui. Que veio ainda aguçar a Amandinha detetive, mas agora em textos, e textos que falem sobre o sentido e o sentir, e sentir, e ver, ouvir, entender, repassar, e agradecer e engrandecer ao Senhor disso tudo.

Que com toda certeza, te fez chegar até essas últimas palavrinhas pensando ser um texto que falava de um trajeto acadêmico, quando na verdade, tinha mais a ver com o descanso nAquele que tudo sabe, porque me trouxe até aqui; e ainda, pensar que qualquer outro curso, aponta para quem tudo fez, criou, formou para o Seu louvor.

Por isso da última vez falei que eu vejo Deus em tudo. Por isso eu gosto tanto de fotografia; elas falam muito. E até pela licenciatura em si, veio o gosto de fazer o que é meu trabalho no mundo: Ensinar. Não sobre coisas perecíveis, mas sobre verdade revelada. Coisa que não se atém a um “profissionalmente falando”, mas ao motivo da minha existência.

 

Recomeçando

Vivo num impasse entre expor lições aprendidas versus saber que estou me expondo no embalo. É que escrever em primeira pessoa é exercício desde a Amanda dos 8 ou 9 anos e atualmente flui sem muito esforço.

O que pega na exposição é que, ao contrário do que pensara, as lições aprendidas não alcançavam só amigos, mas pessoas desconhecidas, e o feedback, por mais lindo que fosse, me dava um choque de realidade. “Que doido fulano ter tal percepção com base nos escritos!”. E despir a alma em palavras escritas, embora prazeroso, exige uma maturidade que as vezes cambaleio na certeza de ter ou não.

Devo confessar que o último que recebi me deixou de sorriso rasgado por uma semana.

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Nesse cambalear de maturidade, acaba que sempre pendo pros recomeços, porque de algumas certezas que rondam a minha cuca é que, feliz ou infelizmente, somos mutáveis; e lendo algumas coisas antigas vi que não correspondiam mais aos meus sentimentos atuais. Algumas ênfases dadas há um ano não são as mesmas.

Não tem muito e já percebo que a própria Casinha, tão ansiada e celebrada, não é algo que me faça os olhos brilharem. Não como antes. Talvez pela percepção, carcaça e decisão de não inclinar meu coração para coisas perecíveis. E isso inclui meu celular que quebrou, a máquina de lavar roupas e algumas coisinhas mais que estavam no efeito-dominó-de-quebras e eu nem suspeitava.

Desde os 24 completos e umas avaliações para onde estava caminhando meu ego, que optei por massacrá-lo de n’s formas, graças a uma sequência de frases de efeito que cumpriram seu papel. O pontapé foi reconhecer a necessidade de receber “parabéns” sei-lá-porquê no 14 de abril e seguir destruindo todos os mimimis que vinham com uma justificativa enorme e necessidade de aceitação.

Com a avaliação da vaidade em tudo, aprendi até a dizer nãos, muito embora o meu raio não tenha exercitado os ouvidos para aceitá-los. Os 24 completos trouxe a ideia de “em poucos dias terei 1/4 de século e preciso ser adulta”, mas a adulta sem deixar minhas criancices particulares e muito menos o encanto com as coisas, até perecíveis, mas que apontam diretamente para Eternidade.

Eu vejo Deus em tudo e mergulhar num curso que aborde a linguagem, que enfatize a comunicação, faz meu coração medroso e ansioso palpitar. A possibilidade de repassar minhas percepções, mesmo sabendo que elas falarão indiretamente de mim para desconhecidos, mesmo com a incerteza de maturidade concreta, ainda me faz pensar nos recomeços e… é fluente.

Nem que seja pra avaliar e ver que, feliz ou infelizmente, as mudanças vieram. E graciosamente, tais palavrinhas fluíram como presente.